Cartografias da Condição Humana - Parte I - O que somos - 1- O corpo que somos
Legenda imagem : Linhas orgânicas sobrepostas atravessam um fundo denso e terroso. Não representam um corpo concreto, mas evocam presença, desgaste e continuidade. Um corpo feito de camadas, atravessado pelo tempo, simultaneamente frágil e resistente.
Ambiente sonoro sugerido:
Henryk Górecki — Sinfonia n.º 3 (Sinfonia das Canções Tristes), Andamento I — Lento, Sostenuto Tranquillo
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A Sinfonia n.º 3 – Sinfonia das Canções Tristes, de Henryk Górecki, não funciona aqui como banda sonora, mas como arquitetura ética e respiratória.
PARTE I — O QUE SOMOS
1. O corpo que somos
O corpo é o primeiro lugar da condição humana.
Antes da palavra, antes da escolha, antes da pertença, há um corpo que nasce, cresce, adoece, envelhece. Um corpo que ocupa espaço, que sente, que resiste — e que falha.
Não temos um corpo.
Somos corpo.
Durante muito tempo, a tradição do pensamento ocidental tentou separar o humano em partes: a razão de um lado, o corpo do outro; o espírito elevado, a matéria imperfeita. Esta separação nunca foi neutra. Produziu hierarquias, justificou exclusões, legitimou a ideia de que alguns corpos contam mais do que outros.
Pensar a condição humana exige começar por desmontar essa ilusão.
O corpo é biológico, mas nunca é apenas biológico.
É social, político, cultural. É moldado por normas, expectativas, ritmos impostos. Aprende cedo o que pode e o que não pode fazer. Aprende quando deve ser discreto, produtivo, silencioso. Aprende também quando é excessivo, incómodo, descartável.
Como nos lembra Simone de Beauvoir, o corpo não é destino no sentido determinista, mas é sempre situação. Não existimos fora dele, nem fora das condições históricas e sociais que o atravessam. Tornamo-nos humanos num corpo situado — marcado pelo género, pela idade, pela classe, pela saúde, pela origem.
Por isso, o corpo nunca é neutro.
Há corpos protegidos e corpos expostos.
Corpos que descansam e corpos permanentemente exaustos.
Corpos visíveis e corpos que só aparecem quando falham.
A vulnerabilidade não é uma exceção da condição humana.
É a sua regra.
Envelhecer, adoecer, depender, precisar de cuidado — tudo isto não são desvios à norma da autonomia. São experiências centrais da vida humana. Ainda assim, organizámos as nossas sociedades como se a dependência fosse uma falha individual, e não uma condição partilhada.
O corpo envelhecido torna-se, muitas vezes, um corpo invisível.
O corpo doente transforma-se num problema a gerir.
O corpo que cuida — quase sempre feminino, quase sempre desvalorizado — permanece fora do reconhecimento público.
Estas hierarquias corporais não são naturais.
São construídas.
E dizem muito sobre aquilo que valorizamos enquanto comunidade.
Nos serviços públicos, o corpo surge frequentemente fragmentado: um número, um processo, um diagnóstico, um pedido. A linguagem administrativa procura neutralizar aquilo que é excessivo, imprevisível, singular. Mas o corpo insiste. Manifesta-se no cansaço, na ansiedade, na espera prolongada, na dificuldade em nomear a própria dor.
Também na cultura o corpo ocupa um lugar ambíguo.
É celebrado enquanto imagem, enquanto performance, enquanto exceção estética.
Mas é frequentemente esquecido enquanto experiência quotidiana, frágil, comum.
Pensar o corpo que somos implica recusar tanto a sua idealização como a sua negação. Implica reconhecer que é no corpo que a política se inscreve: nos horários impostos, nas condições de trabalho, no acesso à saúde, no direito ao descanso, no modo como se envelhece com dignidade — ou se envelhece na margem.
O corpo é o lugar onde a dignidade se torna concreta.
E é também no corpo que o tempo se faz sentir de forma incontornável. O corpo envelhece, cansa-se, marca ritmos. Não vive fora do tempo — vive atravessado por ele. O tempo vivido, o tempo imposto, o tempo acelerado ou suspenso inscreve-se nos gestos, na respiração, na resistência possível.
É nesse confronto com o tempo que a condição humana revela outra das suas dimensões fundamentais.
É aí que o próximo mapa se abre.
Referências comentadas
ENSAIO 1 — O corpo que somos
Simone de Beauvoir
Beauvoir, S. (2015). O segundo sexo (Vols. 1–2). Lisboa: Relógio D’Água.
Obra fundamental para pensar o corpo como situação histórica e social, desmontando a ideia de destino biológico.
Beauvoir, S. (2018). A velhice. Lisboa: Relógio D’Água.
Referência central para compreender o envelhecimento como construção social e política.
© Manuela Ralha, 2026

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